Já é lugar-comum dizer que diagnosticar o câncer mais cedo é melhor, reduz a mortalidade e aumenta as chances de cura. Por isso, o mundo científico tem focado cada vez mais em criar um exame que detecte tumores malignos o quanto antes (ou mesmo antes deles aparecerem). Mamografia, colonoscopia, PSA, tomografia, esses são exemplos de métodos que utilizamos hoje, mas que ainda não identificam todos os tumores no tempo ideal para que o tratamento seja o mais eficaz possível. E um estudo publicado no dia 21 de julho adicionou mais uma peça nesse quebra-cabeça científico.

O artigo de um grupo de cientistas chineses está na revista Nature communications, uma das publicações do grupo Nature, um dos mais reconhecidos no meio científico.  O estudo utilizou uma base de dados e amostras de mais de 120 mil pessoas desde 2007, que estão, desde então, sendo monitoradas para ocorrência de câncer. Nessas amostras, foi utilizado um teste chamado PanSeer, de altas complexidade e sensibilidade e que, resumidamente, visa identificar células tumorais circulando no sangue, por meio da leitura de alterações genéticas específicas dessas células malignas. Esse método lança mão não só de técnicas avançadas de biologia molecular, mas também de bioinformática, inclusive com uso de machine-learning, que é um tipo de inteligência artificial. Apesar de tudo, o procedimento é simples para realização, pois necessita apenas de uma amostra de sangue.

Os resultados dessa análise mostraram que, em 191 pacientes que desenvolveram alguns tipos de câncer comuns naquela região da China, foi possível detectar o tumor em 95% daqueles indivíduos com até quatro anos de antecedência em relação ao jeito “normal” de diagnóstico. Ou seja, pacientes que foram diagnosticados com câncer poderiam ter seu diagnóstico até quatro anos mais cedo, o que poderia levar a tratamentos mais precoces e, muitas vezes, mais eficazes.

Devemos lembrar, porém, que o estudo ainda é – como os próprios autores o classificam – preliminar. Não só o número de pacientes é pequeno, mas também a região onde vivem é restrita. Ademais, vários fatores como a própria técnica de armazenamento das amostras podem ter influenciado nos resultados. Por fim, o exame não definiu a origem dos tumores, sendo necessários outras provas para descobrir após um teste PanSeer positivo, o que pode levar à realização de procedimentos diagnósticos desnecessários naqueles falso-positivos, ou seja, que têm o teste positivo, mas que não têm câncer manifesto.

No meio da pandemia, estamos buscando boas notícias, e essa é uma delas. Sem dúvida é um avanço no caminho certo, mas precisamos de novos estudos com muito mais pacientes para que um teste desse tipo seja incorporado na prática. Torcemos pelo desenvolvimento do trabalho dos pesquisadores ao redor do mundo. Até lá, mantemos a indicação de ter os exames de rastreamento em dia, a fim de detectarmos mais cedo o que já sabemos que funciona! Estamos sempre atentos às novidades!

Referências:

Chen X, et al. Non-invasive early detection of cancer four years before conventional diagnosis using a blood test. Nat Commun. 2020;11:3475.